Aproveito o ensejo das eleições para postar aqui um texto de Edvan Pacheco, colega de profissão e recentemente descoberto como grande cronista, segue:
O voto do homem cordial

A cada eleição no Brasil se sobressai a tese do historiador Sérgio Buarque de Holanda de que o brasileiro é um "homem cordial", ou seja, aquele que, em detrimento da razão, age motivado pelo coração, pela emoção e pelo sentimento.
Não encontro outra forma de justificar a vitória de algumas figuras que jamais seriam eleitas, caso botássemos a cabeça pra pensar. Senão, vejamos: você escolheria para construir sua casa alguém que se apresenta como engenheiro, sendo que jamais esboçou um projeto sequer e sempre trabalhou como dentista? Ou outro que diz ser pedreiro, mas nunca levantou uma parede e trabalhava como padeiro? E para representar seus interesses vários, você contrataria um advogado ficha suja? Como segurança, você contrataria um ladrão?
Se a resposta for não, como explicar por que cargas d'água elegemos figuras sem nenhuma história política, das quais desconhecemos as verdadeiras intenções e capacidades? E outras, cujo currículo mata de inveja qualquer bandido da Papuda?
Podemos responder que é "a força da grana que ergue e destrói coisas belas". Sim, o poder econômico tem grande parcela de contribuição na eleição de qualquer candidato. Mas só isso não basta. Não me consta que Tiririca tenha feito uma campanha milionária. Nem que Liliane Roriz comprou todos os 21.999 votos que recebeu.
Bem, já que citei o nome do coronel que o coronel Sarney enviou "de presente" aos moradores do DF em 1988, analisemos seu caso.
Quem são os eleitores de Roriz?
Uma parcela, a menor, é composta de aproveitadores ricos e pobres que se "dão bem" nos seus governos ou somente durante a campanha. Gente que, de alguma forma, "mama nas tetas do Estado" quando o coronel está no poder, ou que recebe pequenos prêmios, como uma cesta básica, uma camiseta, um almoço, uma promessa de emprego... Não falo de quem recebeu lote para morar. Não acho que quem corretamente recebeu lote para morar "mama nas tetas do Estado".
Outro grupo é formado pelos eleitores conservadores que acreditam de verdade que gente de esquerda come criancinhas. Mesmo que o sujeito jure de pés juntos que não é mais de esquerda, não vai conseguir convencê-lo. Um ex-esquerdista, mesmo se juntando a candidatos ficha suja (como fez Agnelo, ao se unir ao Filipelli), jamais vai receber o voto dos conservadores. Para não eleger quem diz que é ou que foi de esquerda, esse grupo de eleitores, embora religioso, vota até no capeta.
O último e maior grupo são os apaixonados, os que se movem pela emoção, pelo coração. São os homens cordiais descritos pelo pai do Chico Buarque. Eles abraçam o candidato, beijam, pedem autógrafo, tiram foto, passam a mão. Mais parecem adolescentes histéricos no show do Justin Bieber.
Se um alguém na multidão grita: “Ei rapaz, sai de perto desse sujeito, ele é corrupto, bandido! Você corre grande perigo”! O homem cordial vai responder, em êxtase: "O que me importa, cara torta! Estou apaixonado!!!".
Edvan Pacheco